“Ser moderno é ver friamente a morte ao longe e não pensar nunca nela.” — Nicolás Gómez Dávila
Uma das características que marcou o homo sapiens (e também algumas espécies extintas de hominídeos, como por exemplo o Neanderthal), foi o culto dos mortos. Ora, parece-me que esse culto está a desaparecer na cultura europeia; porém, ainda subsistem uns resquícios “arcaicos” e “primitivos” do culto dos mortos na cultura antropológica europeia, mas parece-me que o “progresso” aponta para a extinção do culto dos mortos mediante uma “diferenciação cultural evolucionista”.
Ainda não vai muito tempo, quando havia um funeral na aldeia, o povo acorria em massa. Quebrava-se o tempo profano e aquele dia pertencia ao sagrado. Agora, como as aldeias estão praticamente desertas, esse fenómeno cultural desvaneceu. O povo das aldeias de Portugal, ou foi morrendo sem que tivesse direito ao culto da sua morte, ou emigrou para as grandes cidades, onde a morte é anónima e anódina. Hoje, morre-se anonimamente num apartamento qualquer da grande cidade, e ninguém dá por isso até que o cheiro nauseabundo do cadáver incomode os vizinhos.
O cidadão contemporâneo foi forçado pela política moderna a abandonar as pequenas comunidades (as aldeias e vilas) para se concentrar na megalópole.“Encontrar-se, para o homem moderno, significa dissolver-se numa colectividade qualquer” (Nicolás Gómez Dávila), porque na grande cidade não há comunidades, mas antes e apenas "colectividades".
Fenómenos culturais e políticos europeus, como o aborto e a eutanásia, traduzem esta cultura europeia do “vai morrer longe!”. Mete-se um indivíduo numa clínica, dá-se-lhe uma injecção atrás da orelha, e assunto encerrado e não se pensa mais no malogrado e na morte. E o aborto é outra tentativa de fazer de conta que a morte não existe, desta feita de forma radical, porque se recusa a vida ao malogrado nascituro.
Por detrás da cultura intelectual europeia actual — que contamina mortalmente a cultura antropológica dos povos da Europa — está a recusa obstinada e obstipada da realidade. E dessa recusa da realidade faz parte a negação radical das características fundamentais da natureza humana. E é neste quadro de recusa neognóstica da realidade que se inserem, por exemplo, os movimentos políticos de instauração do “casamento” gay e da adopção legal de crianças por pares de gueis, a ideologia de género, o aborto, a eutanásia, e culminando com a abolição do culto dos mortos na cultura antropológica.
A Europa é hoje o pior sítio para um ser humano saudável viver.