quinta-feira, 10 de março de 2011

1. TEOLOGIA E ECONOMIA - Uma visão introdutória por Jung Mo Sung

1. A boa-nova e os pobres

”As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo”. Essas belas e proféticas palavras abrem o importante documento do Concilio Vaticano II, a Constituição Pastoral “Gaudium et Spes”. Inspirados pelo Espírito Santo e iluminados por estas e tantas outras proféticas palavras, muitos cristãos e Igrejas tomaram parte na luta pela defesa da vida de todos os seres humanos, em especial a dos mais pobres.

No encontro com os pobres, na experiência da solidariedade, no sentir a dor do outro, na indignação frente às injustiças e nas diversas formas de luta para defender a dignidade de todos os seres humanos, muitos de nós percebemos mais claramente que este caminho é um lugar privilegiado para uma verdadeira experiência cristã de Deus. Pois como disse o papa João Paulo II: “Em Jesus Cristo, todos os caminhos em direção ao homem, tais como foram confiados de uma vez para sempre à Igreja no contexto variável dos tempos, são ao mesmo tempo um caminhar ao encontro do Pai e do seu amor”. Isto é, não há outro caminho a Deus senão o caminho que passa pelo ser humano, com os problemas, desafios e possibilidades do seu contexto pessoal e social.

Hoje, 1,3 bilhão de pessoas no mundo vivem com uma renda igual ou menor que um dólar por dia. Na América Latina são mais de 110 milhões de pessoas e este número está crescendo. Entre 1989 e 1993 o número de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia aumentou em 100 milhões e está crescendo em todas as regiões do mundo, exceto no Sudoeste Asiático e no Pacífico. Entre estes mais pobres, as mulheres e as crianças são as que mais sofrem. Sendo que as mulheres constituem a grande maioria, em torno de setenta por cento dos que estão vivendo na pobreza absoluta. É o que se chama de feminização da pobreza.

Além destes dados ligados à renda, devemos nos lembrar ainda que há no mundo hoje quase um bilhão de analfabetos (numa época em que o conhecimento é o instrumento fundamental para o trabalho), mais de um bilhão de pessoas que não têm acesso à água potável e um terço da população dos países mais pobres, a maioria deles na Africa sub-Saariana, tem uma expectativa de vida inferior a 40 anos.

Tudo isso numa economia global de 25 trilhões de dólares movida por grandes avanços tecnológicos. O que mostra que a persistência e o aumento da pobreza absoluta não é um simples resultado da falta de riqueza econômica. Crescimento econômico por si só não combate a pobreza, principalmente se a lógica que rege este crescimento é concentradora de renda e social e economicamente excludente. Um dado ilustrativo disso é que mesmo nos países ricos, chamados de industrializados, há mais de 100 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza e 37 milhões de pessoas estão desempregadas.

Segundo o Relatório sobre o Desenvolvimento Humano da ONU, de 1997, a erradicação da pobreza absoluta no mundo até as primeiras décadas do século XXI é um imperativo moral que é perfeitamente possível de ser realizado. Os custos da erradicação da pobreza no mundo são menores do que muita gente imagina: em torno de 1% da renda global e não mais do que 2 a 3% da renda dos países não-pobres. Este recurso poderia vir do corte nos gastos militares e do seu redirecionamento para programas de redução da pobreza e para investimentos visando um crescimento econômico em benefício dos pobres.

Aqui é preciso deixar bem claro que o modelo de uma economia voltado para a geração máxima de riqueza, normalmente acumulada nas mãos de poucos, é bem diferente de um modelo de economia voltado para a superação da pobreza. No primeiro modelo, o atualmente vigente, a ênfase é dada na inovação tecnológica e gerencial, que reduz o uso e o custo da mão-de-obra, gerando assim o grave problema do desemprego estrutural, e na globalização centrada no mercado financeiro e na liberdade de ir e vir somente do capital e das mercadorias, impedindo a livre circulação dos trabalhadores.

Enquanto que uma economia voltada para a superação da pobreza colocaria a geração de empregos e uma melhor distribuição de renda como critérios centrais na tomada de decisões econômicas e políticas, seja no nível nacional, seja no global. Por isso, o Relatório da ONU diz que o desafio de mobilizar recursos para a superação da pobreza é muito mais um desafio de reestruturar as prioridades.

Diante de um mundo tão complexo e contraditório, de tanta riqueza e miséria, a nossa mensagem de evangelização não pode ser abstrata e genérica. Ela precisa estar concretamente articulada com o atual contexto histórico, com a nova ordem econômica internacional. Isto é, precisa ser um anúncio que seja realmente uma boa-nova aos pobres e excluídos, que seja capaz de desvelar o pecado que move o mundo e revelar a ação do Espírito entre nós. Um anúncio que, ancorado nas nossas práticas, seja capaz de semear a fé e a esperança no Deus da Vida que se revelou em Jesus a todas as vítimas do mundo.

Um sentimento de urgência diante dos problemas sociais que se agravaram nos últimos 15 anos e a convicção de que palavras e ações solidárias com os pobres são essenciais à nossa missão de anunciar a boa-nova ao mundo levaram muitas comunidades e pastorais a se interessarem pela análise de conjuntura. Afinal, não podemos anunciar a boa-nova “no contexto variável” dos tempos, se não compreendemos o nosso contexto.

Se a análise da conjuntura econômica e política, felizmente, já é familiar às nossas atividades pastorais, não se pode dizer o mesmo da reflexão teologia-economia. Apesar desse tipo de reflexão já contar com mais de 20 anos na América Latina, por causa de uma série de dificuldades, muitos ainda se perguntam:

“O que Deus e a teologia têm a ver com a economia?”

2. Teologia e economia

Teologia, como todos sabem, é o estudo sistemático (logos) sobre Deus (Theos). O objeto principal da teologia não é provar que Deus existe, pois isso é um pressuposto da teologia; além de que não é possível provar definitivamente a existência de Deus. Neste sentido, Deus é mais objeto de esperança e fé do que de certeza. Sem entrar em grande debate, podemos dizer que o objeto central da teologia é Deus, ou, em outras palavras, o discernimento das imagens de Deus.

Santo Tomás de Aquino já dizia que de Deus nós sabemos mais o que Ele não é, do que o que Ele é; e que, por isso, não podemos anunciar a Deus “em si”. Isso significa que não devemos cair na tentação de achar que possuímos um conhecimento certo e exato sobre Deus, mas reconhecer os nossos limites e procurar discernir, a partir das experiências de fé/revelação narradas na Bíblia e na Tradição cristã, as diversas imagens de Deus presentes e subjacentes nas nossas vidas, nas Igrejas e nas sociedades.

A partir dessa noção de teologia, aproximemo-nos de uma das primeiras imagens de Deus apresentada pela Bíblia. Tomemos o texto que nos fala do paraíso e da criação da humanidade. O livro do Gênesis nos diz que “Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2,7). É um modo bonito de falar de Deus e do ser humano. Deus é apresentado como o doador da vida; por isso o cristianismo sempre ensinou que a vida é o maior dom que recebemos de Deus. Deus é Deus da Vida; a vida faz parte da “essência” de Deus. O ser humano é apresentado como um “ser vivente” (corpo + vida), nascido das mãos de Deus.

Na tradição bíblica não há, ou pelo menos não predomina, a noção dualista do ser humano, tão forte na filosofia grega. Nessa tradição filosófica e religiosa grega, o ser humano é um composto de corpo e alma, onde o corpo está em luta contra a alma. E a salvação consistiria na salvação da alma da prisão que é o corpo. Nesse sentido, a religião deveria se ocupar da alma, na luta contra as tentações materiais e corporais. O que leva a uma separação radical entre teologia e economia.

Na Bíblia, pelo contrário, Deus se apresenta como doador da vida que se preocupa com a vida do ser humano. Por isso, logo após a criação do “ser vivente”, Deus “plantou um jardim no Éden”, com “toda espécie de árvores formosas de ver e comer” (Gn 2,8-9), e colocou aí o homem “para o cultivar e guardar” (Gn 2,16). Cultivar a terra para que ela dê frutos para a vida dos seres humanos. Na tradição bíblica, a contradição fundamental não é da alma X corpo; mas sim a da vida X morte. É por isso que Jesus diz: “Eu vim para que todos tenham a vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

Todos nós sabemos que não há vida sem comida, bebida, roupa, casa, saúde, liberdade e afeto/acolhimento. Por isso é que o evangelho de Mateus (Mt 25,31-46) nos ensina que esse conjunto, que possibilita a vida, é o ponto-chave no nosso juízo perante Deus. Quando Jesus coloca esses pontos como o critério, ele não está reduzindo a salvação a uma questão meramente material. A salvação não vem pela preocupação com a comida, bebida, etc. Pois todos, mesmo os perversos, se preocupam com essas coisas para si e para os seus. A salvação vem pela busca da comida, bebida, roupa, casa, saúde, liberdade e afeto/acolhimento dos pequenos, daqueles que a sociedade excluiu, daqueles que não nos podem pagar ou retribuir. Pois, só os que são movidos pelo Espírito de Deus são capazes desse tipo de gratuidade. Os que dedicam sua vida a defender a vida e a dignidade humana dos “pequenos” têm experiência de Deus que é Amor, mesmo que não tenham consciência disso.

A produção, distribuição e consumo destes bens materiais é o campo da economia. Sendo assim, na concepção bíblica de Deus, não há contradição entre teologia e economia. Muito pelo contrário, quem conhece o Deus da Vida, defende a vida ameaçada pelas forças da morte e se “intromete” na economia, em nome da fé, para que ela esteja a serviço de todos os seres humanos.

3. Economia e teologia

Muitos pensam que a relação entre teologia e economia é uma mão que vai só da teologia para economia e que na economia não há questões teológicas. Em outras palavras, esta relação seria algo que só os teólogos conseguem ver, na tentativa de justificar a “intromissão” das Igrejas em assunto alheio: a economia. Eles acreditam que a economia é uma ciência moderna, sem relação com a ética e, muito menos, com a teologia, que deveria tratar só dos assuntos “celestiais”.

O que este grupo não consegue ver é que a ciência econômica está fundada, como todas as ciências, em certos pressupostos filosóficos. Até mais. Está fundada também em pressupostos teológicos, ou metafísicos. Isso porque a economia trata das questões relativas à vida humana e social. A redução das religiões às questões privadas e “celestiais”, como ocorreu nas sociedades modernas, não acaba com as grandes questões da humanidade que eram tratadas pelas religiões nas sociedades pré-modernas. E algumas dessas questões são do campo da economia.

Podemos dizer que a ciência econômica tem alguns níveis.

O mais aparente e conhecido é o nível da operacionalidade econômica. Costuma-se identificar esse nível com toda a ciência econômica. Mas ela possui também implicitamente uma filosofia e, portanto, uma ética . Além disso, há também pressupostos teológicos. Isso porque todas as ciências e teorias precisam ser construídas a partir de algumas premissas que não podem ser provadas e que na maioria das vezes compõem um mito.

A esse respeito, Celso Furtado diz que “os mitos têm exercido uma inegável influência sobre a mente dos homens que se empenham em compreender a realidade social. (...) Os cientistas sociais têm sempre buscado apoio em algum postulado enraizado num sistema de valores que raramente chegam a explicitar. O mito congrega um conjunto de hipóteses que não podem ser testadas. (...) A função principal do mito é orientar, num plano intuitivo, a construção daquilo que Schumpeter chamou de visão do processo social, sem a qual o trabalho analítico não teria qualquer sentido”.

Por isso, Joan Robinson, falando do problema moral na economia e na sociedade, diz: “O problema moral é um conflito que não pode nunca ser decidido. A vida social irá sempre apresentar à humanidade uma escolha de males. Nenhuma solução metafísica que possa ser formulada parecerá satisfatória para sempre. As soluções apontadas pelos economistas não são menos ilusórias do que as dos teólogos a quem eles substituíram”.

Cristovam Buarque, por sua vez, diz que a ciência econômica “formulou um marco teórico que se encontra mais perto de uma teologia do processo produtivo. Como toda teologia, a economia foi construída sobre dogmas que formam suas premissas básicas”. E um outro economista importante, J.K. Galbraith, que chama a ideologia neoliberal de “teologia do laissez-faire”, diz que a defesa do neoliberalismo hoje se faz baseada em “fundamentos teológicos mais profundos. Assim como é preciso ter fé em Deus, é preciso ter fé no sistema; em certo sentido, ambos são idênticos”.

Se é verdade o que dizem estes economistas, precisamos desmascarar a teologia implícita na atual ordem econômica internacional que está sendo implantada a partir da globalização, da queda do bloco socialista e da revolução tecnológica e gerencial. Desvelar para pôr a “nu” a teologia que move essa ordem e que, por causa da sua base religiosa, fascina as pessoas.

A importância de revelar essa teologia implícita ou, como diz Hugo Assmann, a “teologia endógena” do sistema de mercado fica mais clara se tivermos em conta duas coisas. Primeiro, quem pratica o mal em nome de algum deus perverso (ídolo), ou de uma devoção religiosa, possui uma consciência tranqüila (cf Sl 73,12). Isso porque o mal que ele pratica contra os “pequenos” não é visto como mal, mas sim como uma obra salvífica. Com isso, o seu mal não conhece limites. Segundo, se o sistema capitalista produz uma “religião econômica”, ele consegue fascinar as pessoas com as suas promessas e exigências de sacrifícios. Um povo fascinado pelo “aroma religioso” capitalista luta para entrar no “santuário” do mercado, mas não para construir uma sociedade mais fraterna, justa e humana.

4. Teologia da nova ordem econômica

Não vou tratar aqui dos detalhes e da dinâmica da nova ordem econômica que está sendo implantada no mundo. Mas sim dos seus pressupostos teológicos. Se é verdade que o capitalismo atual tem uma “teologia endógena”, ele deve ter algumas características fundamentais de todas as religiões. Por exemplo, a promessa do “paraíso”; a noção do “pecado original”, ou a explicação da causa fundamental dos sofrimentos e do mal no mundo; e o caminho e o preço a pagar (os sacrifícios necessários) para se atingir o “paraíso”.

É claro que esses temas não são tratados com uma linguagem religiosa tradicional pelos defensores do sistema capitalista, mas a mudança no linguajar não significa necessariamente que estas questões não estejam sendo tratadas de uma forma mítico-religiosa.

4.1. Paraíso e o progresso técnico
Um primeiro ponto que precisamos ter claro quando falamos da “religiosidade do capitalismo” é o fato de que as sociedades modernas não romperam totalmente com a visão mítico-religiosa das sociedades medievais. Na Idade Média, o paraíso ou a utopia era objeto de uma esperança escatológica. Ele se localizava após a morte e o fim da história, e era fruto da intervenção divina. Na modernidade esta utopia (paraíso) foi deslocada da transcendência pós-morte para o futuro, no interior da história humana. Agora a utopia não é mais vista como fruto da intervenção divina pós-morte, mas sim fruto do progresso tecnológico. É o chamado “mito do progresso”. Com esse mito, desaparece a noção do limite para ações humanas e surge a idéia de que “querer é poder”.

Com essa transformação da noção da utopia e da ação humana, a modernidade é portadora de uma boa-nova que concorre com as boas-novas religiosas tradicionais. Serge Latouche chega a afirmar que a burguesia “fundou seu poder graças ao mito da erradicação da morte em suas três formas (violenta, miserável, natural)”. A civilização ocidental e o seu sistema judiciário e policial acabaria com a morte violenta; o crescimento econômico capitalista, a morte pela fome; e o avanço das ciências, a morte natural.

Esse mito-promessa da erradicação da morte levou à transformação na própria noção da morte. Hoje a morte não é mais vista como uma parte natural da nossa condição humana, mas sim a derrota das ciências diante das doenças e de outras “enfermidades sociais”. Tanto isso é verdade que a localização e a estética dos cemitérios modernos são bem diferentes dos velhos cemitérios. Talvez as empresas que se especializam em congelar os doentes terminais sejam os exemplos mais típicos desse mito. Existem, nos Estados Unidos, empresas que cobram mais de 100 mil dólares para congelar o corpo inteiro ou mais de 30 mil dólares para congelar só a cabeça dos doentes terminais. A lógica é a seguinte: A morte premente é vista como uma derrota da medicina diante da doença. Antes que o “jogo” termine, pede-se um “tempo” — congela-se o doente — para que as ciências médicas possam se desenvolver e encontrar a cura. Descongela-se o doente e o cura. Quando for pego por uma outra doença ainda incurável, congela-o de novo até a nova descoberta. Assim sucessivamente até que sejam encontrados remédios para todas as doenças — incluindo também a “cura” do envelhecimento. Enfim, chegamos à imortalidade.

É dentro deste horizonte de esperança utópica, de esperança mítico-religiosa, que F. Fukuyama afirma que “as boas-novas chegaram”. Com a derrocada do bloco socialista, segundo Fukuyama, está definitivamente provado que o sistema de mercado capitalista é o ápice da evolução da história humana e estamos a um passo de adentrar na “Terra Prometida”. Por isso ele diz que chegamos ao “fim da história”. Não o fim dos acontecimentos históricos, mas sim o fim da sua evolução.

Ele diz:

“A conquista progressiva da natureza, possibilitada pelo desenvolvimento do método científico nos séculos XVI e XVII, processou-se de acordo com certas regras definidas, determinadas, não pelo homem, mas pela natureza e pelas leis da natureza. (...) A tecnologia torna possível o acúmulo ilimitado de riqueza, e, portanto, da satisfação de um conjunto sempre crescente de desejos humanos”.

Segundo o Fukuyama, o segredo do paraíso, a satisfação de todos os desejos humanos, está no progresso infinito que possibilita a acumulação infinita de riqueza. Ele só não explica como o ser humano, que é finito, trabalhando a natureza, que também é finita, pode chegar à acumulação infinita. Aqui está o segredo do mito. A passagem do “finito” para o “infinito” sem explicação racional ou razoável. O problema é que sem essa passagem indevida o mito do progresso não se sustenta, e nem se pode afirmar que estamos chegando à Terra Prometida. Por isso que é “mítico-religioso”, porque pressupõe uma fé num ser supra-humano ou numa “lei da história” também supra-humana que faça essa passagem.

Fukuyama, como tantos outros pensadores liberais e neoliberais, credita à tecnologia essa capacidade mágica. Mas não qualquer tecnologia, e sim aquela que foi desenvolvida “de acordo com certas regras definidas, determinadas, não pelo homem, mas pela natureza e pelas leis da natureza”. E qual é essa natureza que é capaz de gerar uma “ciência tão poderosa”?

É a mesma natureza que, segundo Fukuyama, dirigiu a evolução da história em direção ao sistema de mercado. Nesse mesmo sentido, Paul A. Samuelson, Prêmio Nobel da Economia, também diz que o sistema de mercado capitalista “simplesmente evoluiu e, como a natureza, está sofrendo modificações”.

O sistema de mercado, o sistema de concorrência de todos contra todos, é apresentado como aquele que possibilita o progresso técnico infinito que vai nos possibilitar a acumulação infinita que vai satisfazer todos os nossos desejos atuais e os ainda por vir. O capitalismo é apresentado como realizador das promessas que o cristianismo fazia para após a morte. A mudança não é só no tempo, de pós-morte para o futuro intra-histórico, mas também no sujeito realizador das promessas: de Deus para o sistema capitalista.

Diante dos problemas sociais e econômicos que persistem apesar de todos os programas de ajustes econômicos e de liberalização da economia, os defensores do atual processo de globalização da economia na perspectiva neoliberal concordam que os problemas não são oriundos do sistema de mercado, mas sim da falta de sua implementação completa. Eles têm uma fé tão forte no mercado, que diante de problemas sociais criados pelo mercado eles propõem mais mercado para solucionar. Quando o mercado for “tudo em todos”, eles acreditam que os problemas acabarão.

Para uma promessa tão grande como a “acumulação ilimitada de riqueza” que satisfará “todos os desejos”, é necessário também uma fé imensa. A fé que Milton Friedman, Prêmio Nobel de Economia, cobra dos críticos do capitalismo: “Subjacente à maior parte dos argumentos contra o mercado livre está a ausência da fé na liberdade como tal”.

4.2. Pecado original

Quando a promessa do paraíso entra em contradição com a realidade cheia de problemas sociais e econômicos, é preciso explicar a causa desses sofrimentos e males. Além de mostrar o caminho — “o mercado total” —, é preciso explicar a origem das dificuldades e crises sociais.

Como todas as ideologias ou religiões, o neoliberalismo também parte de um diagnóstico sobre a causa fundamental dos problemas sociais. Isto é, o mal fundamental (ou, em termos religiosos, o pecado) que está na origem de outros males. Um dos textos da Bíblia que tratou desse tema é o mito de Adão e Eva e a teologia cristã chamou isso de “pecado original”. Não no sentido cronológico do termo “origem”, mas no sentido lógico. Isto é, não estamos tratando do “primeiro pecado” cometido na história da humanidade, mas sim do pecado que está na base de todos os outros pecados.

Hayek, por ocasião do recebimento do Prêmio Nobel da Economia, em 1974, proferiu uma conferência que revela a base teológica, epistemológica e antropológica do neoliberal. O título da conferência, “Pretensão de Conhecimento”, que lembra o “pecado original” de Adão e Eva, mostrava a questão de fundo que ele vai tratar. Na conferência ele defendeu a tese de que as tentativas de estabelecer políticas econômicas com o intuito de superar conscientemente problemas sociais estão na raiz de crises econômicas e causam muito mal à sociedade. Isso porque essas tentativas pressupõem a pretensão de conhecer os mecanismos incognoscíveis do mercado, além de ir contra as suas leis. Para ele não há outro caminho senão sermos humildes diante do mercado e deixar livres os mecanismos do mercado para que estes resolvam — de modo inconsciente — os nossos problemas sociais. Nessa releitura da teologia do “pecado original”, a pretensão de conhecer o mercado e dirigi-lo em busca de superação de problemas sociais é a origem de todos os males econômicos e sociais. Em outras palavras, o maior pecado é cair na “tentação de fazer o bem”.

Aliás, esse é o título de um romance escrito por Peter Drucker, o “guru dos gurus” da administração de empresas norte-americanas. Nesse romance, o bispo O’Malley diz:

“Abençoados sejam os humildes’; dizem os Evangelhos. Mas, sabe, Tom [padre, seu secretário], nunca vi os humildes fazerem uma contribuição ou realizarem alguma coisa. Os realizadores são sempre pessoas que se têm em conta suficiente para imporem altas exigências sobre si mesmas, gente altamente ambiciosa. Esse é um enigma teológico de que desisti há muito tempo”. Após essa teologia bem compatível com a lógica do sistema de mercado, o bispo recomenda ao seu secretário que ajude o reitor da Universidade Católica, o padre Heinz Zimmerman, o protagonista do livro, dizendo que “sua única falta foi ter cedido à tentação de fazer o bem e agir como cristão e padre, ao invés de agir como um burocrata”.

Um bom padre, um bom cristão, é aquele que supera a tentação de fazer o bem e age como um burocrata, isto é, cumpre as “leis do mercado”. Não se pode pretender ir contra as leis do mercado, que como já vimos acima são comparadas às leis da evolução da natureza.

O que podemos fazer é cumprir as leis do mercado, isto é, as leis que regem o sistema da sobrevivência do mais forte e a morte do mais fraco, e não cair na tentação de fazer o bem. Isso significa que nós não devemos buscar o bem, mas somente podemos evitar o mal. Mas o que é o mal? O mal é querer fazer o bem e, assim, querer dirigir ou intervir no mercado. Logo, o único bem que podemos fazer é lutar para que eu e outras pessoas não caiamos na tentação de querer fazer o bem e, em nome disso, queiramos interferir no livre mercado.

Com essa reinterpretação do “pecado original”, nós temos uma completa inversão do mandamento do amor. Amar não é mais ser solidário com os que sofrem, mas sim defender os interesses próprios no mercado (concorrência no mercado) e evitar a tentação de fazer o bem.

Só que, felizmente, muitas pessoas continuam tendo a “tentação de fazer o bem”, a tentação de ser solidárias, porque ainda estão abertas ao Espírito do Amor, ao Espírito Santo. Contra essa espiritualidade solidária, os neoliberais defendem o fim do que eles chamam de “paternalismo” e a introdução de uma nova espiritualidade compatível com a modernização neoliberal. Roberto Campos diz explicitamente que “a modernização pressupõe uma mística cruel do desempenho e do culto da eficiência”. “Mística” para superar a tentação e assumir um novo culto. “Cruel” porque esse novo culto significa colocar a vida humana subordinada aos números do lucro, isto é, pressupõe uma insensibilidade ou cinismo diante dos sofrimentos dos menos “competentes” e menos eficazes, os pobres.

Em termos concretos, na atual conjuntura de globalização com ajustes impostos pelo F.M.I. e o Banco Mundial, não há outra saída para os países pobres e devedores da dívida externa senão pagar os juros e a dívida é fazer os ajustes (privatização desenfreada, cortes em gastos sociais, diminuição do papel do Estado na economia e nas questões sociais e a abertura da economia) exigidos em nome das “leis do mercado”. Não importa se esses pagamentos e esses ajustes signifiquem desemprego e morte de milhões de crianças e adultos pobres. Para os neoliberais, não há outro caminho. Buscar outros caminhos seria a “pretensão do conhecimento” que geraria muito mais problemas.

Por isso, a revista The Economist diz que “a melhor coisa que os países ricos podem fazer para ajudar o mundo pobre é persuadir seus governos a adotar políticas corretas, isto é, adotar as medidas de ajuste econômico impostas pelo FM.I. e o Banco Mundial e a liberalização da economia de acordo com a atual dinâmica de globalização da economia.

4.3. Sacrifícios necessários

Quando se crê, tem fé, que a satisfação de todos os desejos é possível com a acumulação ilimitada de riquezas propiciada pelo progresso técnico, se acredita também que o sistema social que gera o máximo de progresso tecnológico é o verdadeiro caminho para o “paraíso”e a “vida em abundância”. Na medida caminho em que se crê que o sistema de mercado capitalista é esse caminho único, sem alternativa, tudo é justificado e legitimado em nome do mercado. O sistema de mercado é visto como o “caminho e a verdade” que nos leva à vida em abundância.

Só que sabemos que o reinado absoluto da lógica do mercado significa cortes nos gastos sociais e exclusão dos “incompetentes” (os pobres) e os que não são mais necessários no atual processo de acumulação de capital. Samuelson, explicando a natureza do mercado, diz que as mercadorias devem ir aonde há maior número de votos ou de dólares. E que, nessa única lógica viável, “o cachorro pertencente a J.D. Rockfeller pode receber o leite que uma criança pobre necessita para evitar o raquitismo”. Ele reconhece que do ponto de vista ético é terrível, mas não do ponto de vista do mercado, o único mecanismo capaz, segundo ele, de coordenar o processo econômico nas sociedades modernas.

Os sofrimentos e as mortes dos pobres, na medida em que são considerados como o outro lado da moeda do “progresso redentor”, são interpretados como “sacrifícios necessários” para esse mesmo progresso. A miséria e a morte são fatos que, como todos os fatos, permitem diversas interpretações. Alguns os interpretam como “assassinatos”, outros como “sacrifícios necessários”.

Quem compartilha da esperança utópica do mercado, interpreta a morte de milhões de pessoas como “sacrifícios necessários”. Para Fukuyama, por exemplo, “o bombardeio de Dresden ou de Hiroshima que, no passado, teriam sido considerados genocídios”, na verdade não são genocídios, porque milhares de pessoas mortas nestas duas cidades foram mortas em nome da defesa do sistema de mercado e democracia liberal.

Mário H. Simonsen também diz que o que se pode buscar é minimizar, mas não acabar com “os sacrifícios necessários ao progresso”. E que “a transição de uma fase de estagnação ou semi-estagnação para uma de crescimento acelerado costuma exigir sacrifícios que naturalmente envolvem certo aumento da concentração de rendas”. O que significa que os sacrifícios são sempre impostos sobre a população mais pobre, enquanto que o setor mais rico se beneficia dos sacrifícios de vida dos pobres com o aumento de sua riqueza. Tudo em nome das leis do mercado que promete nos levar para a acumulação ilimitada.

Quando os sofrimentos e mortes são interpretados como “sacrifícios necessários” entramos num círculo vicioso perverso. Na medida em que esses sacrifícios não resultam no que os “sacerdotes” do sistema de mercado prometem, entramos na crise de legitimidade dos sacrifícios. Para que esses sacrifícios não sejam vistos como “em vão”, e, com isso, os “sacerdotes” do mercado não se tornem simples assassinos de milhões de pessoas, é preciso reafirmar a fé no mercado e no valor salvífico dos sacrifícios. Se diz então que os sacrifícios ainda não frutificaram porque ainda não se sacrificou o suficiente. Assim, se exige mais sacrifícios para que os sacrifícios anteriores não tenham sido em vão.

Além dessa “fidelidade” à lógica de sacrifícios necessários, temos também a prática de acusar os “soberbos” — os que não têm humildade diante do mercado e procuram intervir no mercado — como os culpados pela não frutificação dos sacrifícios. Os sindicatos combativos, movimentos e comunidades eclesiais populares e os partidos de “esquerda” são geralmente apontados como os culpados de irem contra os sacrifícios necessários, atrasando assim a chegada ao “paraíso”.

É importante termos em conta que essa lógica sacrificial está muito enraizada na consciência social do Ocidente, para não falarmos em todo mundo. Em quase todas as religiões encontramos uma teologia do sacrifício, ou equivalentes. Na nossa tradição ocidental cristã é mais do que conhecida a idéia de que “sem sacrifícios não há salvação”. Esse tipo de teologia tem a grande vantagem de dar um sentido para o sofrimento às pessoas que não sabem como superá-los; é a grande desvantagem de servir de legitimação ao processo de opressão.

A percepção da presença marcante da lógica sacrificial na base da consciência social nos ajuda a compreender por que a grande maioria das pessoas das nossas sociedades não se rebelam contra a lógica capitalista. Além de compartilhar dos “sonhos de consumo” do sistema de mercado, a grande maioria da população acha normal e natural a exigência de sacrifícios para se conseguir o “paraíso” ou para expiar os pecados (de incompetência, de fracassos, de ser pobre).

4.4. Mercado, globalização e o Reino de Deus

Toda a teologia do mercado neoliberal que vimos acima foi tirada de economistas e teóricos neoliberais. Não é uma “invenção” de algum teólogo. Apesar de que existem teólogos profissionais, como Michael Novak, chefe do departamento de teologia do Instituto Americano de Empresas, que escrevem livros e artigos de teologia explícita para defender a tese de que o sistema de mercado capitalista é a encarnação do Reino de Deus na história, preferimos analisar somente os não-teólogos profissionais para mostrar que o capitalismo está fundado numa lógica mítico-religiosa perversa.

É a presença objetiva dessa estrutura mítico-religiosa no capitalismo, que Marx analisou a partir do seu conceito de “fetiche”, que possibilita que alguém como Michel Camdessus, diretor-geral do F.M.I., pronuncie conferências como “Mercado-Reino: a dupla pertença”. Nessa conferência pronunciada ao Congresso Nacional da Associação dos Dirigentes Cristãos de Empresas de França, ele disse: “Mercado-Reino, sabemos bem que a estes dois nós devemos casá-los”. Após dizer que o “Rei [Deus] se identifica com o POBRE” e que na perspectiva do Reino de Deus e do juízo final o “meu juiz e meu rei, é meu Irmão que tem fome, que tem sede, que é estrangeiro, que está nu, enfermo ou prisioneiro”, tema central na Teologia da Libertação, ele diz que Jesus se dirige hoje aos empresários e aos responsáveis da globalização da economia para que cumpram a missão de aliviar os sofrimentos dos irmãos pobres e expandir a liberdade de Deus. Seguindo a inversão que ocorre no capitalismo com respeito ao “mandamento do amor”, que vimos acima, ele diz: “Nós somos aqueles que receberam esta Palavra [se referindo ao texto de Lc 4,16-23]. (...) Sabemos que Deus está conosco na tarefa de fazer crescer a fraternidade. Somos os que administram a troca e também somos portadores do partilhar. Como é isso concretamente?”

Como buscar a maximização do lucro nas relações de concorrência no mercado (a defesa do interesse próprio), ao mesmo tempo em que busca a partilha, a solidariedade? Não seria isso impossível, ou contraditório? Não para quem tem “fé no mercado”.

Camdessus diz:

“Vocês são homens do mercado e de empresa, em busca de eficácia para a solidariedade. O Fundo Monetário foi criado para pôr a solidariedade internacional ao serviço dos países em crise que se esforçam para tornar suas economias mais eficazes. A busca da eficácia no e pelo mercado, e vocês sabem tanto quanto eu quão relacionadas estão a eficácia e solidarieda(...)”.

Camdessus estabelece um circulo: eficácia para a solidariedade e solidariedade a serviço da eficácia. Como temos visto até aqui, para os capitalistas a condição para a solidariedade para com os mais pobres (o critério do juízo final) é a eficácia na produção de bens. E como, para eles, só há eficácia “no e pelo mercado”, o mercado é a condição de solidariedade. Por isso, Camdessus diz que “o mercado é uma solidariedade internacional. Desaparece a diferença e a oposição entre a concorrência (no mercado) e a solidariedade. Ser solidário, preocupar-se com os problemas do outro, significa agora a defesa dos interesses próprios contra os interesses dos outros. Pois, só a defesa dos interesses próprios no mercado geraria a eficácia e, portanto, a solidariedade.

Essa “mágica” que transforma o “egoísmo” em solidariedade seria realizada pela “mão invisível” do mercado (Adam Smith). É o “ente sobrenatural” de que falamos acima, o ser supra-humano capaz de realizar a acumulação ilimitada, a satisfação de todos os desejos e a unidade da humanidade. Na tradição bíblica isso se chama idolatria.

Mas, como próprio Camdessus sabe, ajustes econômicos e a liberalização da economia, nos moldes propostos pelo F.M.I., Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio, provocam nos países menos competitivos desemprego e outros problemas sociais. Por isso, ele conclui a frase dizendo: “o mercado é uma solidariedade internacional prometida mediante abundante eloqüência, mas que vem lentamente e sob forma às vezes inadequada”.

Mas a sua fé no mercado o faz acreditar que o mercado “escreve direito por linhas tortas”, por isso crê que “formas às vezes inadequadas” não são na verdade inadequadas, mas os estranhos caminhos do mercado no processo de instaurar um mundo de unidade e fraternidade.

Sobre esse outro sonho do cristianismo, a unidade e a fraternidade universal, Camdessus tratou em uma outra conferência, “O Mercado e o Reino frente à globalização da economia mundial”. Ele disse que o evangelho ao anunciar o Reino fala “não de uma fraternidade complacente — ia dizer paternalista — mas de uma fraternidade que se constrói na competição, nas tensões, nas diferenças. Uma fraternidade que, no universo da economia, deve ser vivida no mercado e na mundialização; no mercado onde ela anuncia e chama à partilha”.

Fraternidade baseada na competição no mercado! Eis aqui um exemplo cabal da inversão do conceito de fraternidade cristã.

5. Teologia cristã e economia

Diante desta inversão idolátrica de tantos valores humanos e cristãos; diante de um sistema econômico que diviniza uma instituição humana, o mercado, e em seu nome exige sacrifícios de vidas humanas em troca da promessa de “acumulação ilimitada de riqueza”, qual deve ser a atitude dos cristãos? Qual é a contribuição que a fé cristã pode dar na luta contra esse “império”?

Se tem algum fundamento tudo o que vimos até aqui, diante de um sistema “divinizado” devemos levar em consideração o que já dizia Marx: “a crítica da religião é a condição preliminar de toda a crítica”. Só se pode criticar algo que não seja visto como sagrado. O que significa que nossa crítica ao sistema capitalista só terá efeito multiplicador na sociedade se conseguirmos tirar a sua ‘‘aura religiosa sagrada’’ e mostrar que essa religiosidade não passa de uma perversão, de uma idolatria.

O tema da idolatria é um ponto central em vários teólogos da libertação que trabalham a relação teologia e economia/sociedade. Mas não é um conceito restrito à teologia. Erich Fromm, por exemplo, ao fazer uma análise sócio-psicanalítica da sociedade capitalista utilizou esse conceito com muita naturalidade. Max Horkheimer é um outro crítico do capitalismo que ousou: “Qualquer ser limitado — e a humanidade é limitada — que se considera como o último, o mais elevado e o único, se converte em um ídolo faminto de sacrifícios sanguinários, e que tem, ademais, a capacidade demoníaca de mudar a identidade e de admitir nas coisas um sentido distinto”. Com isso queremos dizer que a fé e a teologia cristã tem uma contribuição específica a fazer na crítica teórica e prática do capitalismo.

5.1. A fé na ressurreição de Jesus e a crítica da idolatria

A defesa da tese de que não há alternativa ao sistema capitalista está fundada, em grande parte, na sua “vitória” contra o sistema socialista. Essa vitória é apresentada como prova da “veracidade” das propostas capitalistas e da sua justiça. Todas as outras noções de justiça, como a da ‘justiça social”, que vão contra a noção da justiça capitalista baseada na propriedade privada e “leis do mercado” são consideradas equivocadas e contrárias ao progresso.

Essa identificação da vitória e poder com a verdade e justiça e, no fundo, com Deus não é nova na história. O historiador judeu Flávio Josefo narrou, no seu livro “As Guerras dos judeus”, o pronunciamento que o general Agripa fez para os judeus para convencê-los a não iniciar uma guerra contra o Império Romano. O seu argumento está baseado nos fatos conhecidos por todos do seu tempo: “Pois que todos os que vivem debaixo do céu temem e honram as armas dos romanos, quereis vós sós fazer-lhes guerra? (...) Pois a quem tomareis por companheiros para a guerra? (...) Pois não há outra ajuda nem socorro senão o de Deus; mas a este também os romanos o têm, porque sem sua particular ajuda seria impossível que o império tal e tão grande permanecesse e se conservasse”.

É também conhecido o costume da Idade Média de recorrer ao duelo para resolver o problema das versões diferentes que dois cavaleiros tinham sobre algum assunto importante. A lógica é a mesma. Deus está do lado do justo que fala a verdade. Portanto, quem fala a verdade vai vencer o duelo mesmo sendo mais fraco. Isso porque Deus não abandona o justo no duelo e lhe dá a vitória. Logo, o vencedor é o justo e fala a verdade.

Essa é a lógica usada pelos capitalistas para dizerem que o sistema de mercado é justo e que os ricos são merecedores da sua riqueza.

Há entre os críticos do sistema capitalista os que também se utilizam dessa mesma lógica, só que com sinal invertido. Eles acreditam que a luta em favor dos pobres é uma luta justa e que, por isso, vencerá necessariamente. Para eles não é tão importante se há ou não condições objetivas para vitória política, pois acreditam que Deus, ou a “lei da história”, está do seu lado por serem justos, e assim não poderão ser derrotados. Mesmo que essa vitória tarde um pouco.

Esse tipo de “confiança” levou e ainda leva muitos “militantes” e grupos de boa vontade a cometerem erros estratégicos importantes por superestimarem as suas forças políticas e sociais; além de reforçar a lógica que legitima a dominação capitalista.

A fé cristã não está fundada nessa concepção de Deus que está sempre do lado do vencedor-justo. Pelo contrário, está fundada na confissão de que Jesus de Nazaré ressuscitou. Ela é o núcleo da nossa fé. Confessar que Jesus, derrotado, condenado e morto pelo Império Romano e o Templo, ressuscitou é crer num Deus que não está associado com o vencedor (o Império e o Templo). Essa fé permite distinguir a vitória e o poder da verdade e justiça.

Os discípulos de Jesus não eram presos por ensinarem que há vida após a morte, mas sim por “anunciar, em Jesus, a ressurreição dos mortos” (At 4,2). A grande novidade “revolucionária” consiste em afirmar a ressurreição não dos vitoriosos e poderosos, mas sim de alguém política e religiosamente derrotado, que para os olhos de Deus era “o Santo e o Justo” (At 3,14).

Ao descobrirmos que Jesus, o crucificado, ressuscitou, descobrimos que a ordem social estabelecida e os detentores do poder não são justos e nem representam a vontade de Deus. Essa fé nos move a testemunharmos a ressurreição de Jesus de um único modo possível: defendendo a vida e a dignidade humana dos pobres e pequenos.

Lucas nos diz como as primeiras comunidades testemunhavam a ressurreição de Jesus:

“A multidão dos que haviam crido era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum.

Com grande poder os apóstolos davam o testemunho da ressurreição do Senhor, e todos tinham grande aceitação.

Não havia entre eles necessitado algum. De fato, os que possuíam terrenos ou casas, vendendo-os, traziam os valores das vendas e os depunham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se então, a cada um, segundo a sua necessidade” (At 4,32-35).

Esse texto tão bonito tem algo bem estranho. O centro da mensagem é o testemunho da ressurreição do Senhor. Mas, essa mensagem central vem “envolta” com dois parágrafos semelhantes que falam não da ressurreição, mas de questões econômicas: a coleta dos bens e propriedades conforme as possibilidades de cada um e a distribuição deles segundo as necessidades de cada um, visando não ter necessitados entre eles. A partilha que transformava a multidão em comunidade. Alguém poderia dizer que os dois parágrafos que envolvem a mensagem central estão lá por um equívoco de Lucas e que, portanto, o testemunho da ressurreição do Senhor não tem nada a ver com questões econômicas. Outros poderiam dizer, com razão, que, muito pelo contrário, é na atitude em relação aos bens concretos que se testemunha a ressurreição do Senhor. Porque a fé na ressurreição de Jesus revela que a salvação não está em acumular poder e riqueza, mas sim em formar comunidades humanas, onde todas as pessoas sejam reconhecidas, independente de sua riqueza ou outras características sociais.

A fé na ressurreição de Jesus é uma “revolução epistemológica” — uma revolução na maneira de conhecer — que nos permite descobrir a verdadeira imagem de Deus e do ser humano. Ao descobrirmos a verdadeira face de Deus e a dignidade humana fundamental de todos os seres humanos, sentimo-nos interpelados pelos “clamores dos pobres” e chamados a construir uma sociedade mais humana e justa.

5.2. Reino de Deus e sacrifícios

Confessar que Jesus é o Cristo, o Messias, tem também outras implicações fundamentais na nossa discussão. Após a crise do bloco socialista, a derrota dos sandinistas na Nicarágua e tão poucas vitórias em tantos anos de lutas populares no Brasil, muitos se sentem como os discípulos de Emaús: “Nós esperávamos...”

Esses discípulos esperavam “que fosse ele [Jesus de Nazaré] quem iria redimir Israel” (Lc 24,21). Como ele e seu grupo tão pequeno iriam conseguir a proeza de expulsar os romanos, “limpar” o Templo e, assim, redimir Israel? Porque ele é Messias! Ou melhor, porque eles acreditavam que ele fosse o Messias. Mas a sua morte na cruz mostrou que estavam equivocados. Agora eles estavam voltando às suas casas para esperar o verdadeiro Messias aparecer.

Os judeus que assistiam a sua morte também haviam dito:

“Que desça agora da cruz, para que vejamos e creiamos” (Mc 15,32). Descer da cruz era o mínimo que o Messias, o enviado de Deus, podia fazer. Afinal, se Jesus fosse realmente o Messias teria que fazer coisas mais grandiosas do que simplesmente descer da cruz.

Como ele não desceu e nem implantou o Reino de Deus na terra, a maioria dos judeus não creram nele. Porque eles acreditavam que o Reino de Deus seria estabelecido em plenitude com a vinda do verdadeiro Messias. Não pela sua força, mas pela força de Deus que estaria com ele. Messias derrotado não é Messias.

No fundo voltamos à teologia de que o vitorioso o é porque Deus está com ele. Se essa teologia é correta, devemos admitir que todos os vitoriosos da história tiveram o poder porque Deus estava com eles. Devemos aceitar que os europeus que dizimaram milhões e milhões de indígenas na América Latina — e outros que com os seus poderes mataram tantos — venceram porque Deus estava do lado deles.

Mas sabemos que isso não é verdade. Sabemos, pela ressurreição de Jesus, que a vitória não é prova de justiça; o que significa que os justos nem sempre vencem. A fé na ressurreição de Jesus exige uma profunda modificação no nosso conceito de Messias. Para distinguir o cristianismo deste tipo de messianismo, José Comblin afirmou que “o cristianismo não é um messianismo: ele utiliza temas do messianismo para dizer outra coisa”.

A confissão de que Jesus é o Messias exige que a nossa concepção de Messias não seja mais aquela que associa o Messias com vitórias “fantásticas”, supra-humanas, que nos protegeria definitivamente da provisoriedade da história humana. Confessar que Jesus é o Cristo é perceber que ele é o Messias não pelas suas vitórias, mas sim pela sua fidelidade plena à missão recebida de Deus de anunciar a dignidade radical de todos os seres humanos e em nome dessa verdade enfrentar até à morte as forças idolátricas dos impérios.

Nesta perspectiva, pertencer às comunidades que seguem a Jesus não é ter certeza da nossa vitória econômica, política ou social, mas sim a certeza de que o seu Espírito vai estar sempre conosco nos dando força e inspiração para continuarmos anunciando a boa-nova aos pobres e a toda humanidade. O anúncio de que todos os seres humanos são, independente de sua riqueza, raça ou gênero, amados infinitamente por Deus e que por isso possuem uma dignidade fundamental e são merecedores de uma vida digna.

Se cremos que Deus estava com Jesus e por isso o ressuscitou, confirmando-o como o Cristo, também devemos tirar outras conclusões que seguem dessa fé. Se nem mesmo Jesus, que era o Messias, conseguiu implantar plenamente o Reino de Deus na história, é porque o Reino de Deus não cabe plenamente na nossa história. Na história humana só podemos construir e vivenciar presenças antecipatórias do Reino de Deus: relações sociais, econômicas, políticas, culturais e religiosas que sejam, apesar das suas ambigüidades e provisoriedades, sinais da presença do Reino de Deus entre nós.

Afirmar que o “paraíso”, o Reino de Deus ou o Reino da Liberdade não se constroem na história humana é afirmar que “querer não é poder”. Nós seres humanos somos capazes de desejar para além das nossas possibilidades humanas. Mas há mais do que isso. É negar a legitimidade de qualquer exigência de sacrifícios de vidas humanas, seja em nome do mercado, do Estado, do Partido ou da Igreja. Porque todas as exigências de “sacrifícios necessários” são feitas em nome de uma instituição sacralizada que se apresenta como o único caminho para a construção do “paraíso”. Como o paraíso não cabe na história, nenhuma instituição humana é portadora desse paraíso. Logo, não se pode fazer exigência de “sacrifícios necessários”. A crítica à idolatria na tradição bíblica consiste exatamente nisso.

É por isso que Jesus afirmou tão incisivamente: “Misericórdia é que eu quero, e não sacrifício”.

O Reino de Deus, o “paraíso”, não é obra de nossas mãos, muito menos fruto de sacrifícios em obediência às leis do mercado; mas sim é fruto da graça e da misericórdia de Deus. E a manifestação plena dessa graça, do Reino de Deus, se dará na escatologia, quando Deus “enxugará toda lágrima dos nossos olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais” (Ap 21,4).

Afirmar que o Reino de Deus não cabe na história não significa deixar de lado o Reino de Deus. Muito pelo contrario. O Reino de Deus é o horizonte que nos dá sentido para a nossa vida e nossa luta contra sistemas de opressão e exclusão. Mas, como todo horizonte, está sempre mais adiante de nós, por mais que caminhemos.

Para que a nossa postura não-sacrificial não seja compreendida equivocadamente, é preciso esclarecer a diferença entre “sacrifícios” e “dom de si”. Sacrifícios são imposições externas, em nome de uma lei divinizada, que vai contra a liberdade da pessoa vitimada e exigidas em nome de uma divindade (ou instituição sacralizada), em troca da promessa do paraíso ou de uma recompensa. O “dom de si” é fruto do amor e da liberdade. É um movimento que nasce dentro da pessoa e vai em direção à pessoa amada ou daquele a quem nutre solidariedade.

A diferença entre sacrifício e dom de si pode ficar mais clara se tomarmos o exemplo de uma mãe que não consegue deixar de passar a noite toda ao lado do seu filho em estado terminal, mesmo sem poder fazer nada, e o da enfermeira que gostaria de ir dormir mas fica ao lado, fazendo o sacrifício, para poder receber o seu pagamento.

Quem luta por amor, livremente, como “dom de si”, não sente que a luta não valeu a pena porque não obteve a vitória. Porque a motivação principal para a luta não foi a promessa da vitória, mas sim a solidariedade e a afirmação da dignidade humana, e nem a experiência da luta foi uma coisa amarga. Mas quem assume qualquer coisa por sacrifício, por obrigação, a única coisa que compensa o amargor da luta e da própria vida é a vitória ou a recompensa. Quando não se atinge a vitória, só sobra a sensação de frustração por sacrifícios que não valeram a pena.

No “dom de si” experienciamos a graça de Deus que nos dignifica e compreendemos o que significa dizer que “Deus é Amor”. Na experiência de “sacrifício” só conseguimos experienciar obediência ao deus (ídolo) da lei.

E “onde está o Espírito do Senhor está a liberdade” (2Cor 3,17), e não a obediência à lei (do mercado).

6. “Dai-lhes vós mesmos de comer”

Vivemos um tempo muito difícil. Os problemas sociais aumentam e a insensibilidade das pessoas também. Parece que o cinismo é marca do nosso tempo. Até muitas comunidades cristãs estão caindo na mesma tentação dos discípulos por ocasião da multiplicação dos pães. Diante de uma multidão com fome, que “estavam como ovelhas sem pastor” (Mc 6,34), os discípulos sugerem a Jesus: “Despede-os para que vão aos campos e povoados vizinhos e comprem para si o que comer” (Mc 6,36).

Mas quem são esses quase cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças? Provavelmente a maioria eram pessoas desempregadas ou diaristas que não conseguiram o serviço e, por isso, podiam passar o dia todo ouvindo a pregação de Jesus. Se isso é verdade, e parece que sim, pois Jesus “ficou tomado de compaixão por eles” (Mc 6,34), a proposta dos discípulos resolve problemas de quem? Provavelmente de um pequeno número de pessoas que tinham um pouco de dinheiro para comprar algo para comer. Mas não da maioria. E provavelmente também a dos discípulos que se sentiam mal com o sentimento de impotência que lhes invadia vendo a fome da multidão. É como se eles dissessem a Jesus: Senhor, manda-os passar fome longe dos nossos olhos, para que o nosso coração não sinta mais esse sentimento de impotência.

Jesus responde: “dai-lhes vós mesmos de comer” (Mc 6,37). E os discípulos, não conseguindo sair da lógica do mercado, respondem que não têm tanto dinheiro assim para comprar tanta comida. Jesus sabia que eles não tinham esse dinheiro, pois sabia muito bem que ele não pregava coisas agradáveis aos ricos e poderosos para que recebessem muitas doações. Mas sabia também o mais importante: a mesma lógica que expulsa os pobres (a lógica do mercado) não pode solucionar a fome dos pobres. Por isso ele buscou uma alternativa.

Não queremos discutir aqui a proposta alternativa de Jesus na multiplicação dos pães. Mesmo que conseguíssemos chegar a uma conclusão de como realmente aconteceu essa “multiplicação”, ela não serviria para nós. Afinal, vivemos num mundo muito diferente de Jesus. O que precisamos é ficar atentos para não cairmos na tentação de repetir “o que os olhos não vêem, o coração não sente” e fechar os olhos das nossas comunidades à fome e sofrimento dos pobres.

A nossa fé no Deus da Vida, em Jesus que veio para que todos tenham vida em abundância, e no Espírito Santo, o Espírito de Amor e Liberdade, deve ser testemunhada através da nossa solidariedade na defesa da vida dos pobres e excluídos.

A nossa esperança no Deus que ressuscitou Jesus deve ser a base da nossa espiritualidade para sermos sementes de esperança no meio do povo. Esperança e sonho de um mundo solidário e humano, que desmascara a pequenez do sonho do consumo e acumulação ilimitada do mercado.

Movidos por esta fé e essa esperança, sigamos os passos de Jesus e dos pais da nossa fé e lutemos, com coragem e criatividade, pela vida de todos, em particular a dos “pequenos”. A nossa luta deve se dar em diversos níveis. Em ações imediatas de solidariedade e defesa da vida; e em ações de médio e longo prazo visando a construção de uma ordem econômico-social mais justa e humana. A nossa caminhada não é fácil, mas é gratificante. Pois na solidariedade, no repartir do “pão”, experienciamos a presença de Jesus ressuscitado que caminha conosco.

(Do livro “Desejo, mercado e religião”- Editora Vozes – pg.15-45, sem as notas de rodapé)

Fonte: http://pensocris.vilabol.uol.com.br/teologiaeeconomia.htm

Nota de explicação: O blog Economia Reformacional tem como o seu principal teórico, o economista holandês Bob Goudzwaard, professor emérito de Teoria Econômica da Universidade Livre de Amsterdam e no seu clássico Capitalism and Progress - A Diagnosis of Western Society. Também neste blog procuraramos dialogar com outras correntes como o artigo acima do pensador de tradição ou presssupostos da teologia da libertação.

Economia da religião

Pensado por Roger

Ejemplo_oferta_y_demanda[1]A economia da religião é a ciência que estuda as relações de oferta e demanda dentro do cenário religioso. Ela não deve ser confundida com a religião da economia. Esta está simplesmente ligada ao capitalismo, à ganância e ao amor ao dinheiro. Ela aparece explícita nos templos neopentecostais e implícita em quase todas outras igrejas, assim como nos grande centros financeiros do planeta, mas também nos pequenos empreendimentos. Já aquela não apresenta nenhum vínculo, pelo menos não diretamente, com a moeda. Ela simplesmente se vale das leis da economia para explicar as trocas de valores no "mercado religoso".

Por um lado temos a oferta de serviços religiosos que vai desde bens materiais como sesta básica, passando por bens sociais como reconhecimento, status, aceitação, poder de comando; e chegando até benefícios espirituais como acompanhamento e ajustamento psicológico, paz, alegria e etc. Por outro lado temos a demanda por tais serviços, que em contrapartida paga com o "capital' religioso. O capital religioso ou social mais comum, mais básico e mais aceito nas transações religiosas é a frequência.

O preço é a frequência.

Os serviços religiosos só serão encontrados no "mercado da fé" em pequenas quantidades para quem só estiver disposto a frequentar raramente um igreja ou instituição religiosa, já uma frequência mais assídua fará com que a quantidade de tais serviços também se multiplique. Todavia, a curva da demanda segue em outra direção: Como a frequência depende do tempo, ela é portanto um bem escasso. Assim para serviços religiosos que exijam assiduidade intensa haverá pouco interesse do público consumidor, mas para aqueles serviços que não exijam maior vínculo haverá consumo em massa. Destarte o "mercado religioso" se equilibra no ponto onde ambas as curvas se cruzam; e para determinado serviço religioso em determinada quantidade ou qualidade será "pago" uma frequência x nas reuniões.

Exemplificando:

Imaginemos como serviço o "ensino espiritual (teológico)" ou "uma oração (para trazer benefícios diversos)". Os fiéis poderão consumir tais serviços, na medida que frequentem a casa religiosa semanalmente, geralmente 2 a 3 horas no domingo. As reuniões de oração são realizadas durante a semana e exigirá algumas horas a mais, caso o fiel (consumidor) queira um serviço especializado. O mesmo acontece com o ensino que custará um tempo a mais na escola bíblica ou conferências e retiros dos mais variados.

O esquema funciona semelhantemente aos pontos de audiência em um programa de televisão. São os pontos no Ibope o "preço" pago pelo telespectador que garantirão que o programa permaneça no ar. Assim é a frequência. Por isso líderes saem desesperados atrás de "mais um para Cristo" e querem a todo custo fazer suas congregações crescerem. Eles não se envergonharão em "pescar em aquário", jamais moverão se quer um quilômetro em direção aos países da assim chamada "janela 10 x 40", embora insistam que a pregação do evangelho é para ganhar almas para Cristo, e incutirão um profundo sentimento de culpa em qualquer um que ouse desligar-se do sistema religioso, contribuindo para queda da frequência. Obviamente, como tudo nesse mundo, essa frequência será traduzida no vil metal.

Jesus fugiu a todo custo dessa lógica da economia da religião. Embora inicialmente fosse seguido por multidões, ele insistia em refugiar-se na solidão e proibia seus agraciados a propagarem a bênção recebida. Não raras vezes abandonou os novos convertidos à própria sorte, não permitindo que eles o seguissem. Quando a audiência caiu drasticamente ele deixou a porta aberta para que também os 12 pudessem escapar sem maiores constrangimentos. E finalmente no dia de sua morte, quando prestou o maior serviço à humanidade, encontrava-se só e abandonado.

Mas não podemos comparar Jesus com os atuais líderes religiosos, isso é sacanagem, afinal Jesus foi um homem santo, Jesus é Jesus.

Fonte: http://teologia-livre.blogspot.com/2010/04/economia-da-religiao.html