domingo, 11 de janeiro de 2009

CRISTIANISMO & CAPITALISMO - Dr. R. J. Rushdoony

O capitalismo é supremamente um produto do Cristianismo e, em particular, do Puritanismo que, mais que qualquer outra fé, tem promovido a capitalização.

RECOMPENSAS E CASTIGOS

Uma opinião comum em anos recentes sustenta que recompensas e castigos representam um meio prejudicial de lidar com crianças ou adultos. Somos informados que recompensas produzem motivos errados naqueles que ganham e que são traumáticas para aqueles que perdem. É dito também que o castigo é meramente uma vingança. Sobre essas premissas, alguns educadores têm eliminado a atribuição de notas, bem como outras formas de recompensa e castigo. Esse ódio por recompensa e castigo é uma forma de ataque sobre os conceitos inter-relacionados de competição e disciplina. Quer na esfera espiritual, com respeito ao céu, ou no mundo acadêmico por notas, ou no mundo dos negócios por lucros, castigos e recompensas (ou penalidades) motivam as pessoas (Sl 19.11; 58.11; 91.8; Mt 5.11; etc.). Essa motivação leva à competição, e a competição requer disciplina, autodisciplina, disciplina sob a lei civil e criminal, e disciplina sob Deus (Hb 12.1-11). E um resultado da competição honesta é o caráter.

Mas, algumas pessoas objetam, por que não por cooperação? Não é a cooperação um método superior à competição? Mas, como declarado por Campbell, Potter e Adam em Economics and Freedom [Economia e Liberdade], “num mercado livre, a cooperação voluntária e a competição são nomes para o mesmo conceito econômico”.

Historicamente, a competição do mercado livre tem sido apenas possível onde uma cultura comum e uma fé comum levam indivíduos a cooperarem uns com os outros. Os homens competem por cooperação na confança que outros respeitem a qualidade, e eles constantemente melhoram seus produtos e serviços para conseguir essa cooperação. A cooperação morre se a competição morrer, pois então a “tração”, compulsão e a força substituem as atividades livres e cooperativas do mercado.

Fundamentalmente, recompensas e castigos pressupõem duas coisas. Primeiro, pressupõem Deus, que estabeleceu certos retornos na forma de recompensas e penalidades na própria natureza do universo, bem como em sua lei moral (Ex 20.5, 6; Jd 5.20). Assim, qualquer ataque sobre a idéia de recompensas e castigos é um ataque sobre a ordem de Deus. Segundo, recompensas e castigos pressupõem liberdade como básica para a condição do homem. O homem é livre para se esforçar, competir, trabalhar por recompensas e sofrer penalidades. Dessa forma, qualquer ataque sobre esses conceitos é também um ataque sobre a liberdade; é uma insistência que nivelar a igualdade com total controle é uma condição melhor para o homem do que a liberdade é ou possa ser.

S. Paulo declarou, “onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2Co 3.17). Deus e liberdade são inseparáveis. E a liberdade pressupõe e requer a atividade livre; ela tem seu esforço, suas recompensas e castigos, seu céu e inferno, seu êxito e fracasso. Essas são as condições necessárias da liberdade. A alternativa é a escravidão. A escravidão oferece uma forma muito real de segurança, mas isso o faz também a morte e um cemitério (Dt 30.15-20). Respeitar recompensas e castigos, competição e disciplina, é respeitar a própria vida, e valorizar o caráter e a autodisciplina. Isso signifca, simplesmente, escolher a vida: “escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua descendência”(Dt 30.19).

LIBERDADE SOB DEUS

Um dos grandes fundadores do sistema americano foi o Rev. John Cotton (1584-1658), que tornou básica para o governo colonial a premissa que a lei e ordem piedosa signifcam poder limitado e liberdade limitada. Nem o homem, nem o seu governo civil têm o direito moral ao poder ilimitado ou à liberdade ilimitada. Em todos os tempos deve haver poder e liberdade sob a lei, e, ultimamente, sob Deus (Dt 17.14-20; Pv 8.15, 16; 1Rs 2.1-4, etc.).

Mas hoje temos exigências para tanto poder como liberdade ilimitada, que são idéias mutuamente contraditórias. Temos também a crescente afrmação que a liberdade não é sob a lei e sob Deus, mas fora da lei. Há aqueles que crêem que podem ser livres somente negando as afrmações de todas as leis e afrmando que os verdadeiros direitos e a verdadeira liberdade signifcam uma liberdade da lei.

A fé bíblica e essa lei verdadeira é um dom de Deus e o fundamento da liberdade do homem (Dt 16.20). A lei é a condição da vida do homem: assim como o homem fisicamente respira o ar para viver, assim social e pessoalmente seu meio-ambiente de vida é a lei, a qual a graça de Deus o capacita a ter e guardar (Sl 119; Pv 6.23). O homem não pode viver sem lei, assim como não pode viver sem comer. O propósito da lei de Deus é a vida; como Moisés declarou, “o SENHOR nos ordenou que cumpríssemos todos estes estatutos… para nos guardar em vida” (Dt 6.24). O homem foi criado e é salvo por Deus para viver pela lei, pois sua disciplina é “o caminho da vida” (Pv 6.23).

Aqui temos a grande divisão. Os americanos, educados durante algumas gerações na perspectiva bíblica, têm visto a liberdade como vida sob a lei de Deus, mas muitos hoje estão afrmando que a liberdade é escapar da lei. As alternativas à liberdade sob Deus, liberdade sob a lei, foram declaradas claramente por Karl Marx. Elas são duplas. Primeiro, alguém pode ter anarquia, todo homem uma lei para si mesmo, com nenhuma lei, e uma “liberdade” total de qualquer responsabilidade para com alguém. Segundo, alguém pode trocar Deus pelo Estado, e a lei total do Estado substitui a lei de Deus. A liberdade então desaparece e o Estatismo ou comunismo total para o “bem-estar” do homem toma lugar. Isso é uma negação da liberdade como um ideal “burguês”, e uma substituição da liberdade pelo bem-estar planejado pelo Estado como a verdadeira felicidade do homem.

Toda tentativa, portanto, de remover essa república do “sob Deus” signifca que o anarquismo ou comunismo será certamente o resultado, quer planejado ou não por aqueles que atacam o lugar de Deus na vida americana. Essa é uma alternativa inescapável. Para restaurar a verdadeira liberdade, devemos restaurar a verdadeira lei (Is 8.20). A Bíblia fala da “lei perfeita da liberdade” (Tg 1.25; 2.12), pois ela vê a lei de Deus como a própria fonte e fundamento da liberdade do homem.

Devemos abandonar a idéia perigosa que liberdade signifca um escape da lei: isso pode ser verdade somente se o escape for do comunismo, que não é lei verdadeira, mas sim tirania. A palavra tirania vem de uma antiga palavra grega com um signifcado simples: signifca governo secular ou humano no lugar da lei, no lugar da verdadeira liberdade sob Deus.

O sistema americano não é anarquia nem tirania, mas liberdade sob Deus.

A RIQUEZA É ALGO MORAL?

Muitos escritores atuais inferem que Jesus e a Bíblia falam contra a riqueza como algo imoral. É verdade que a Parábola do Homem Rico (Lc 16.19-31) nos mostra o homem rico no inferno e o pobre Lázaro no céu, mas a condenação do homem injusto vem do rico Abraão no céu. Novamente, embora Jesus tenha dito, “é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus” (Mc 10.25; Mt 19.24), o mesmo capítulo deixa claro que Jesus quis dizer que nenhum homem, rico ou pobre, pode salvar a si mesmo: “Aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível” (Mt 19.26). Em outras palavras, a salvaçãonão é um trabalho “faça você mesmo” para ninguém, rico ou pobre; é obra e dom de Deus. Muitos homens e mulheres ricas estavam entre os salvos que tinham um relacionamento próximo de Jesus (Lc 8.2-3; 19.1-19; 23.50-53).

A Bíblia condena a riqueza ganha de maneira fraudulenta, mas declara que a riqueza honesta é uma bênção. Primeiro, portanto, a riqueza honesta deve ser desejada como uma bênção de Deus. “A bênção do SENHOR é que enriquece [i.e., rico materialmente]; e não traz consigo dores” (Pv 10.22). A posse de riqueza é legal e protegida nos Dez Mandamentos por dois mandamentos: “Não furtarás” e “Não cobiçarás” (Ex 20.15, 17; Dt5.19, 21). Jesus confrmou isso e assumiu a legalidade da riqueza como um princípio piedoso (Mt 25.14-30; Lc 19.12-27; 16.1-8). Jesus deixou claro que a riqueza moralmente adquirida é uma bênção de e sob Deus: “Buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6.32s.; Lc 12.3s.), e não há nada errado em desejá-la, se andamos em termos da prioridade da fé em, e obediência a, Deus.

Segundo, a riqueza é moralmente boa, mas é um bem subordinado, um meio para uma vida melhor, e não um fm em si mesmo. E ela é muito incerta para ser o objetivo da vida (Mt 6.19s.), e a riqueza pode co-existir com a pobreza de alma (Lc 12.16-21;14:18s.; Mt 22.6s). Assim, a riqueza tem perigos morais quando ela se torna primária, e não secundária na vida de um homem. Não é o dinheiro que é a raiz de todos os males, mas “o amor ao dinheiro”, e a cobiça por dinheiro com esse amor pervertido é citado como pecado por Paulo (1Tm 6.10). Os socialistas podem ser tão culpados de “amor ao dinheiro” como qualquer outra pessoa. Dessa forma, riqueza e prosperidade podem ser perigosas, se os homens fazem dela o objetivo da vida, se eles as idolatram.

O mal, então, não está na riqueza como tal, mas no coração dos homens, e falar de riqueza como imoral é uma lógica falsa, uma insistência que as coisas são imorais, e não o homem. Mas, como Paulo escreveu a Tito: “Todas as coisas são puras para os puros, mas nada é puro para os contaminados e inféis; antes o seu entendimento e consciência estão contaminados” (Tt 1.15). Dessa forma, embora homens imorais possam adquirir e usar erroneamente riquezas, é o seu coração e ações que são imorais, e não a riqueza em si. Em seu lugar devido, portanto, a riqueza não é somente moral, mas também bendita, e pode ser honestamente desejada, adquirida e mantida, e é um benefício para toda a sociedade.

CAPITALIZAÇÃO É O PRODUTO DE TRABALHO PARCIÔNIA

Capitalização é o produto do trabalho e parcimônia, a acumulação de riqueza e o uso sábio da riqueza acumulada. Essa riqueza acumulada é investida em efeito no progresso, pois é tornada disponível para o desenvolvimento dos recursos naturais e a comercialização de mercadorias e produtos.

A parcimônia que leva à economia ou acúmulo de riqueza, à capitalização, é um produto do caráter (Pv 6.6-15). A capitalização foi um produto em cada período da disposição Puritana, da atitude de abrir mão de prazeres presentes para acumular certa riqueza para propósitos futuros (Pv 14.23). Sem caráter, não há capitalização, mas sim descapitalização, a exaustão contínua da riqueza. Como resultado, o capitalismo é supremamente um produto do Cristianismo e, em particular, do Puritanismo que, mais que qualquer outra fé, tem promovido a capitalização.

Isso signifca que antes que a descapitalização, quer na forma de socialismo ou infação, possa ocorrer, deve haver um colapso da fé e do caráter. Antes dos Estados Unidos começar seu percurso no socialismo e na infação, ele teve que abandonar sua posição cristã. O povo passou a ver mais vantagem em gastar capital do que em acumulá-lo, em desfrutar prazeres superfciais do que viver em termos dos prazeres duradouros da família, fé e caráter.

Quando o socialismo e a infação saem a caminho, tendo começado no declínio da fé e do caráter, eles vêem como seu inimigo comum precisamente aquelas pessoas que ainda têm fé e caráter. Como haveremos de nos defender? E como podemos ter um retorno ao capitalismo? O capitalismo revive somente se a capitalização reviver, e a capitalização depende, em sua forma melhor e mais clara, daquele caráter produzido pelo Cristianismo bíblico.

Isso é escrito por alguém que crê intensamente no Cristianismo ortodoxo e em nossa liberdade e herança cristã histórica. É meu propósito promover aquela capitalização básica da sociedade, da qual tudo o mais fui, o capital espiritual. Com o capital espiritual de uma fé bíblica e centrada em Deus, nunca podemos nos tornar espiritual e materialmente falidos (Pv 10.16).

SOCIALISMO E INFLAÇÃO DESCAPITALIZAM UMA ECONOMIA

Descapitalização signifca a destruição progressiva de capital, de forma que uma sociedade tem progressivamente menos habilidade produtiva. Descapitalização é a dissipação da riqueza acumulada (Pv 14.23). Capitalização é o acúmulo de riqueza por meio do trabalho e parcimônia. Uma economia livre, o capitalismo, é uma impossibilidade sem capitalização (Pv 10.16).

Alguns dos países agrícolas potencialmente mais ricos são importadores de produtos agrícolas, tais como a Venezuela e o Chile. As áreas de pesca da Costa Pacífca da América do Sul são algumas das mais ricas conhecidas no mundo, ricas o sufciente para alimentar os países daquela área: “Pescadores chilenos não conseguem comercializar peixe apropriadamente, e atiram quantidades incríveis de peixes capturados no mar, pois não tem armazenamento nem transporte sufciente para levar os peixes aos mercados. Assim, não existe uma falta de trabalho nem uma falta de mercado para os peixes, mas a capitalização necessária para fornecer as facilidades de reunir trabalho, produto e mercado onde isso está faltando.”

Muito do mundo está na mesma situação difícil: tem o trabalho, os recursos naturais, e o comércio faminto por seus produtos, mas carece do capital necessário para fazer o fuxo das mercadorias possível. O socialismo tenta resolver este problema, mas somente o agrava, pois aumenta a pobreza de todos interessados. O socialismo e a infação realizam o mesmo propósito: eles descapitalizam uma economia.

A inflação acontece quando as pessoas têm latrocínio em seu coração, e o mesmo é verdade do socialismo. O socialismo é latrocínio organizado; como a infação, ele toma de quem tem e dá a quem não tem. Ao destruir o capital, ele destrói o progresso e empurra a sociedade ao desastre.

À medida que os produtos da capitalização começam a se esgotar, não existe novo capital para substituí-los, e o Estado não tem capital próprio: ele somente empobrece o povo mais e, portanto, a si mesmo, tentando criar capital por cobrança de impostos.

Todo Estado socialista se descapitaliza progressivamente.

AME TEU PRÓXIMO - O QUE ISSO SIGNIFICA?

Um versículo bíblico familiar é frequentemente usado por muitos para justifcar o socialismo e atacar a defesa da propriedade como “egoísmo”. Mas o mandamento, “amarás o teu próximo como a ti mesmo”, exige compartilhar a riqueza, para programas de bem-estar, e para uma unidade mundial?

As principais passagens bíblicas explicando esse versículo são Levítico 19.15-18, 33-37; Mateus 19.18, 19; 22.34-40; e Romanos 13.8-10. O que elas nos dizem? Primeiro, quem é o meu próximo? Em Levítico 19.33-37, Moisés deixa claro que nosso próximo signifca qualquer um e todos com quem nos associamos, incluindo nosso inimigo; e Jesus enfatizou isso na parábola do Bom Samaritano (Lc 10.29-37), citando a misericórdia do samaritano para com um inimigo, um judeu.

Segundo, o que a Bíblia quer dizer por amor? A palavra amor hoje é um termo que diz respeito a sentimento, um sentimento que é mais forte que os “laços” da lei. A palavra bíblica amor “é o cumprimento da lei” (Rm 13.10). Além do mais, amor tem referência primariamente ao cumprimento da lei de Deus; ele se relaciona à justiça na Bíblia, e se refere à lei de Deus e ao tribunal da lei de Deus. O homem moderno que quebra as leis sexuais ou de propriedade em nome do amor está, dessa forma, carente de amor da perspectiva bíblica, pois amor “é o cumprimento da lei”.

Terceiro, quais leis estão envolvidas no amor para com o nosso próximo? De acordo com Jesus (Mt 19.18-19), e novamente enfatizado por Paulo (Rm 13.8-10), amar o nosso próximo signifca guardar a segunda tábua dos Dez Mandamentos na relação para com ele. Isso signifca “não matarás”, ou não tomar a lei em nossas próprias mãos, que você deve respeitar o direito à vida dado por Deus ao seu próximo. “Não adulterarás”, signifca que você deve respeitar a santidade do lar e da família do nosso próximo. “Não furtarás”, signifca que devemos respeitar o direito à propriedade dado por Deus ao nosso próximo (ou inimigo). “Não levantarás falso testemunho” signifca que devemos respeitar sua reputação. E “não cobiçarás requer uma obediência a essas leis em pensamento bem como em palavras e atos.

Dessa forma, “amarás o teu próximo como a ti mesmo” é a base da verdadeira liberdade civil no mundo ocidental. Ele requer que nós respeitemos em todos os homens e em nós mesmos os direitos à vida, ao lar, à prosperidade e à reputação, em palavra pensamento e ação. A palavra bíblica amor não tem nada a ver com amor erótico, que é anti-lei. O amor bíblico “é o cumprimento da lei” em relação a todos os homens. Ele não pede para que gostemos de todos os homens, ou que os introduzamos em nossas famílias e círculos, nem que compartilhemos nossas riquezas com eles. A Bíblia simplesmente diz: ame o amigo, o inimigo e a si mesmo, ao respeitar e defender esses direitos dados por Deus à vida, lar, propriedade e reputação para todos.

Os “humanitaristas” modernos são, dessa forma, frequentemente culpados de violar a lei de Deus em nome de um amor anarquista. O amor bíblico guarda a lei.

Fonte: http://www.monergismo.com/textos/politica/Cristianismo-Capitalismo-Rush-livreto.pdf

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

COMO A VISÃO DE RUSHDOONY SOBRE ECONOMIA PODERIA MUDAR O MUNDO

Por Ian Hodge - Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto1

“Nós despersonalizamos o mundo; achamos mais fácil tratar as pessoas impessoalmente. Falamos de problemas de ‘trabalho’ e problemas de ‘gerenciamento’, quando deveríamos falar sobre pessoas criadas à imagem de Deus. Fazê-lo, isto é, vê-los como pessoas, dá uma dimensão religiosa à situação, não uma dimensão científica. Isso requer de nós ver a economia a partir de uma perspectiva bíblica, e ver tudo da vida como Deus requer que vejamos. Temos desvalorizado a vida e as pessoas, e precisamos novamente ver todas as coisas em termos do Senhor e Sua lei-palavra” (“Our Business World,” Journal of Christian Reconstruction, Symposium on Christianity and Business, Vol.10, No.2, 67.)


Que tipo de mundo econômico a Bíblia criaria? Essa é uma pergunta que vem à mente quando você lê os escritos de R. J. Rushdoony. É evidente que seu chamado para voltar à toda a Bíblia teria um impacto grande sobre a economia e o comércio. Mas que tipo de impacto?

Considere a visão de Rush sobre dinheiro e inflação, expresso em seu livro Larceny in the Heart [Rapinagem no Coração]. Isso realmente vai direto ao cerne da questão: a atitude do homem para com o dinheiro. Fora de Cristo, somos governados pela rapinagem, argumenta Rushdoony, não pela ética bíblica. Ora, rapinagem é uma palavra que foi tirada do vocabulário popular, mas significa essencialmente “o ato de tomar e carregar ilegalmente uma propriedade pessoal, com o intuito de privar permanentemente dela o seu dono legal”.

Na visão de Rushdoony, a ilegalidade dela não é em termos da lei do homem, que na verdade encoraja a rapinagem, mas em termos da lei de Deus, que a proíbe. Você poderia pensar que essa não é uma descrição que se encaixe pessoalmente a você. Mas o contexto de Rushdoony para esse comentário é o dinheiro, e dinheiro envolve as questões de inflação e dívida. Ora, nada descreve melhor nossa economia Ocidental moderna que a palavra dívida, e não podemos entender os altos níveis de dívida até que apreciemos como a dívida é o veículo principal da expansão monetária, inflação.
Inflação, contudo, é um meio pelo qual a riqueza é tirada de um grupo e dada a outro. As vítimas da inflação não têm uma escolha nessa questão.

Elas perdem o valor do seu dinheiro à medida que ele é transferido, no processo inflacionário, a outros. Rushdoony está certo. Isso é rapinagem. Considere comprar uma casa hoje num financiamento de 25 anos. Se a casa custa R$ 300.000, no final você acabará pagando no mínimo duas vezes esse valor. Agora é tempo de vender a casa, e qual o preço que você pedirá?

Você pedirá dinheiro suficiente para cobrir o preço de compra mais os juros. Em outras palavras, você agora espera que o preço das casas aumente para você não perder dinheiro. Mas o preço aumenta mais pela inflação monetária (i.e., expansão de crédito) do que por vários outros fatores em muitos casos. É fácil se tornar complacente nesse assunto. É fácil não se importar sobre como o próximo comprador conseguirá o dinheiro para comprar a casa.

Se ele tiver que pegar um financiamento maior e mais longo, que seja. O problema é dele! Todavia, esse é um problema nosso também, pois criamos para nós mesmos um interesse pessoal na expansão de crédito, para que não percamos dinheiro da compra da nossa casa. E isso, diz Rushdoony, é ter um interesse pessoal e financeiro na continuação da inflação.

Se você entende o ponto, entenda quão radical é o pensamento econômico de R. J. Rushdoony em seu chamado de volta à Bíblia. Com o que o mundo econômico se pareceria se Rushdoony fosse ouvido e todos vivessem pela lei de Deus? Considere apenas dois apectos-chave do Antigo Testamento, o princípio do Sabbath e Levítico 19:13b:“Não
retenham até a manhã do dia seguinte o pagamento de um diarista”(NVI).

Pense sobre as implicações práticas desse versículo. Os empregadores deveriam pagar os seus empregados diariamente. Em contraste, o sistema atual permite que os empregadores acumulem o salário devido aos seus trabalhadores, e o acúmulo pode continuar por uma, duas semanas, ou mesmo um mês.

Mas esse versículo está limitado aos empregados? O princípio não deveria se aplicar também a todos aqueles bens e serviços que usamos? Agora tocamos noutro ponto polêmico no negócio mundial: contas a pagar. Quantos empresários usam o dinheiro de seus fornecedores pagando em quarenta e cinco, sessenta, noventa e mesmo 120 dias? Somente quando a ameaça de cobrança torna-se real é que os donos pagam.

Mas no mundo moderno, é quase uma virtude estender as contas a pagar o tanto quanto possível, enquanto insistindo que as contas a receber devem ser pagas no prazo. Não é o caso de padrões duplos? Penso que sim. Mas aqui vemos que a dívida é uma forma de vida. É tão “normal” para nós viver assim, que lemos a Bíblia, e especialmente o Antigo Testamento, como alguma relíquia arcaica que não poderia ter sido destinada ao mundo moderno. Na verdade, é fácil ver que o mundo moderno como o conhecemos
não existiria se as pessoas no passado tivessem vivido pela Bíblia.

Assim, pagamos nossas contas quando nos convém, e não quando somos moralmente obrigados a fazê-lo. Conseguindo que os empregados adiem pegar o seu salário por uns poucos dias, os empresários usam esse dinheiro para outros propósitos. E então queremos saber o porquê tantos empregados se prejudicam financeiramente quando seu empregador termina em falência.

Finalmente, considere as leis sabáticas. Entre muitos cristãos o princípio do dia de Sabbath é mantido. Mas não estou tão interessado aqui no dia de Sabbath como estou no ano de Sabbath. Ele é ensinado em Levítico 25:1-7. Nessa passagem, a instrução para o ano de Sabbath é descanso. A terra deveria descansar por um ano a cada sete anos, com a promessa de Deus que a produtividade nos seis anos sustentaria os israelitas durante o sétimo ano. Precisaria sustentá-los mais um pouco, visto que o oitavo ano iniciaria outro círculo de colheita que não seria ceifada até mais adiante naquele ano, ou mesmo no ano seguinte.

O conceito do ano de Sabbath, contudo, é expandido em Deuteronômio 15:1-18 com o conceito de libertação. Essas suas idéias, descanso e libertação, pintam a figura de como Deus pretendia que fosse o ano do Sabbath: um ano de descanso para a terra e seus trabalhadores, e um ano de libertação da dívida.

Observe, contudo, que a passagem em Deuteronômio não é uma instrução para que os mutuários livrem-se da dívida no final de seis anos. É uma instrução para rendatários que eles devem libertá-los de todas as obrigações de dívida naquele ano. E, adicionalmente, eles não deveriam nem mesmo endurecer o seu coração contra o muturário simplesmente porque o ano de libertação estava chegando.

Interessantemente, o conceito do ano sabático ainda tem seus remanesentes nas universidades do mundo, onde o professor tem o seu ano sabático. No caso de meus amigos professores na Austrália, isso ainda está em pleno exercício!

Mas é facil ver como o conceito sabático, se aplicado na ampla comunidade, mudaria a cultura de formas dramáticas. Por exemplo, pense como o ano de libertação afetaria cada instituição de empréstimo se esse princípio fosse aplicado hoje. Imagine o que ele faria com preços de imóveis, expansão da atividade empresarial, e um exército de outras atividades que temos hoje e não são governadas por esse conceito.

Nossa dificuldade é que imaginar isso é perceber que a introdução da lei bíblica à economia afetará cada indivíduo. Preços de imóveis, por exemplo, entraria em declínio. Assim também muitos outros preços. E dificilmente alguém está psicologicamente preparado para quedas de preço. Temos sido informados que o crescimento de preço indica uma economia em crescimento, quando o oposto é a verdade. O que é necessário são preços em queda.

Poderíamos até imaginar a extensão do ano sabátido ao princípio do jubileu (Lv.25:9-24). Não era possível deserdar uma família da terra. Assim, isso coloca um freio na atividade econômica. A cultura contemporânea não conhece tal recurso de diminuir a economia e proteger as famílias da perda econômica perpétua.

O ano de jubileu criou naturalmente outro “problema” que não se dá bem com o homem moderno. Esse ano seguia um ano sabátido, e era outro ano sabático. Dois consecutivos. Agora o problema de produção é visto de forma grave. Deve haver produção suficiente para sustento por dois anos, somando ao tempo necessário para o ano seguinte começar a plantar e colher novamente. Dois anos “sabáticos” a cada cinqüenta anos. Algo desconhecido em nossos dias.

Assim, a visão de Rushdoony de uma economia baseada na Bíblia está longe de se concretizar. A inicialização de tal visão deve vir dos líderes da igreja e de cristãos que tenham a visão de fazer mudanças em nossas vidas. A aparente dificuldade de instituir leis é freqüentemente a escusa para não implementá-las de forma alguma. Aparente e supostamente, o problema não está conosco, mas com Deus em estabelecer leis impossíveis.

Mas existe um lugar fácil para começar. Há outro aspecto da Bíblia que Rushdoony encoraja que seria um passo na direção correta. É o dízimo. Esse seria um primeiro e de certa forma fácil passo para começar a viver pela Palavra de Deus.

O dízimo tem mais de um aspecto, como Rushdoony argumenta em seu livro, Tithing and Dominion, co-autorado com E. A. Powell. Entre outras coisas, o dízimo era usado para celebrar a bondade de Deus para conosco, bem como para ser uma bênção a outros em necessidade (Ver Dt. 14:22-29).

Aqui reside um ponto importante. O dízimo simboliza a nossa obrigação a Deus com nossas finanças. Dar a Deus a primeira porção do nosso salário indica nosso comprometimento com a Sua Palavra e já começa o processo de mudança em nossas vidas.

Claramente, uma pessoa não pode mudar o mundo. Mas somos chamados a mudar primariamente nossas próprias vidas e governar a nós mesmos de acordo com a Sua Palavra. E se pudermos simplesmente conseguir o suficiente de pessoas fazendo esse comprometimento e mudança inicial, então as outras questões mais difíceis começarão a se esclarecer.

Ian Hodge, AMusA, PhD, é escritor, consultor de negócios e professor de piano. Ele escreveu quatro livros e centenas de ensaios sobre Cristianismo aplicado, muitos deles para a Chalcedon.

1
E-mail para contato: felipe@monergismo.com. Traduzido em abril/2008.

Fonte: Faith for All of Life, Nov/Dez 2007, p. 13-14, 32.